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 Livros Proféticos da Bíblia


Profetas Maiores

-  Livro de Isaías

-  Livro de Jeremias e Lamentações

-  Livro de Baruc

 Profeta Isaías

  ISAÍAS (770 – 687 a.C.) era filho de ilustre família de Jerusalém, erudito, poeta e estilista. Recebe sua vocação profética em 740 a.C., no ano da morte do rei Ozias (6, 1 – 13). Foi conselheiro dos reis Joatã, Acaz e Ezequias numa época em que a infidelidade religiosa e moral alastrava na corte e no povo judeus.

  É uma obra de 66 capítulos. Contudo, desde o séc. XVIII, os críticos discutiram a unidade do livro e após muitas dúvidas, hoje os autores católicos (e, com eles, o magistério da Igreja) admitem haver três partes bem distintas de Isaías:

        A primeira seria do séc. VIII a.C., ou seja, dos tempos do próprio Profeta (capítulos 1 – 39) ;

        A segunda dataria do exílio na Babilônia de 587 – 538 a.C. (capítulos 40 – 55) ;

        A terceira teria sido escrita após o exílio, na época da restauração do povo em sua terra
(capítulos 56 – 66) .

  É por esse motivo que o livro de Isaías é atribuído à escola de Isaías; os discípulos deste profeta continuaram a obra do mestre através dos séculos.

  Vejamos cada uma das partes.

Primeira Parte (1 – 39):

  Os capítulos 36 – 39 constituem um apêndice de natureza histórica, encontra paralelo em 2Reis 18, 13 – 20, 19. Acredita-se que não foi escrito por Isaías, pois se trata de acontecimentos que aconteceram após a sua morte.

  Já os capítulos de 1 – 35 supõe as condições históricas em que o profeta Isaías viveu (séc. VIII a.C.). Eles constam de varias coleções de dizeres, dispostas sem ordem cronológica.

  A maior parte desses oráculos foram redigidos pelo próprio profeta conforme Isaías 8, 1; 30, 8 e os capítulos 6 – 8 que possuem traços autobiográficos.

  Contudo, admite-se que certos trechos dessa 1ª parte receberam sua forma literária definitiva por parte dos discípulos do profeta
(Isaías 8, 16). É possível que essa coleção tenha sido montada em um volume somente após o exílio ou 200 anos após a morte do profeta. Ela contêm notáveis profecias messiânicas:

  Messias aparece como Emanuel (Deus conosco) em Isaías 7, 10 – 25, que irá nascer de uma jovem, que no texto dos LXX é dita como virgem.

  Em Isaías 9, 1 – 7 nasce o Menino Prometido como “Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai eterno, Príncipe da Paz”.

  O trono de Davi floresce e produz um rebento, que é o Messias e este faz descer sobre a terra a plenitude do Espírito do Senhor e cumpre as promessas de restauração da natureza violentada pelo pecado (Isaías 11, 1 – 9).

  Por conta dessas profecias é que Isaías é tido como um dos maiores profetas do Antigo Testamento.


 

Segunda Parte (40 – 55):

 

  Esta seção se deve a um ou mais autores anônimos, que anunciaram e escreveram na Babilônia, aos israelitas aí deportados, a iminente libertação e a volta a Terra Santa (séc. VI a.C.). As situação histórica já é diferente das do capítulos anteriores:

        Os reinos de Samaria e Judá já não existem e os cidadãos foram despojados e deportados, em castigo de suas infidelidades (42, 18 -25; 43, 5ss.26ss; 47, 5; 52s);

        Jerusalém e o Templo estão destruídos e a sua restauração é profetizada (44, 26ss; 45, 13; 49, 15ss; 52, 9);

        A nação que retém os judeus é a Babilônia, opulenta e arrogante, mas prestes a cari em ruínas
(47, 5 – 9);

        O rei Ciro da Pérsia parece conhecido ao leitores e Javé o dirigirá contra a Babilônia (46, 1 – 13;
47, 1 – 11);

        Os leitores são estimulados à confiança e à alegria, pois se aproxima o fim do exílio (40, 10s.27;
41, 10 – 13;46, 12s; 48, 20).

  Tem-se a impressão de que o autor está fisicamente entre os ouvintes, pois os interroga em tom vivo e caloroso (40, 21.26; 42, 10; 48, 8; 50, 10).

  Nunca dirige palavras condenatórias contra Israel, mas apenas contra Babilônia (41, 11 – 16; 42, 14 – 17; 43, 14s).

  Os oráculos de consolo são marcantes, predizendo o cumprimento das antigas promessas messiânicas (41, 25 – 29; 46, 8 – 12), a libertação do povo e a travessia pelo deserto em busca da Terra Santa (41, 17 – 20; 43, 1 – 7; 49, 7 – 26), a glória da futura Jerusalém (51, 17 – 52, 2; 54, 1 – 3.11 – 17) e  a conversão dos gentios (45, 14 – 17.22 – 25; 55, 3 – 5).

  Nessa parte se encontram também os 4 Cânticos do Servo Javé que falam da expiação prestada por um Servo Inocente em favor dos seus irmãos pecadores. São eles:

        A vocação do Servo de Javé: Isaías 49, 1 – 6

        Os predicados do Servo de Javé: Isaías 42, 1 - 4

        A ingrata missão do Sevo de Javé: Isaías 50, 4 – 9

        A morte e a glorificação do Servo de Javé: Isaias 52, 13 – 53, 12

Terceira Parte (56 - 66):

  É diferente da primeira e da segunda tanto por seu contexto histórico como por sua temática e seu estilo.

  Tem a preocupação de consolar e exortar os judeus repatriados recentemente do exílio. A comunidade religiosa é infiel à Lei do Senhor.

  Estão desanimados diante dos obstáculos que se opõem a reconstrução do Templo e da Cidade Santa.

  Os anciãos e maiorais se mostram indignos de suas funções.

  Diante disso o profeta reafirma as antigas promessas de Javé, principalmente as referente à nova Jerusalém.

  O Profeta, nessa parte, deixa de fazer a função de consolador, para fazer as vezes de Pastor, Doutor e Salmista:

  Lembra as severas exigências do culto e da Lei do Senhor, em particular o sábado (Isaías 56, 2.4 – 6; 57, 6 – 12; 58, 13s; 65, 1 – 6; 66, 3s).

  Repreende os idólatras e infiéis (Isaías 56, 8 – 57, 13; 58, 1 – 5; 66, 17).

  Recita profissões de fé e de penitência (Isaías 59, 1 – 4; 63, 7 – 64, 11).

  Transmite instruções a respeito do jejum e da oração (Isaías 58, 1 – 12)

  O livro de Isaías deixou-nos profecias messiânicas tão vivas que Isaías é chamado “o Evangelista do Antigo Testamento”.

 

Profeta Jeremias

     Ao profeta Jeremias são atribuídos o livro de profecias e o das Lamentações.

     Nasceu em Anatot, perto de Jerusalém e viveu entre 650 – 567 a.C. Recebe seu chamado por volta de 626 a.C (Jr 1, 2; 25, 3) e exerceu sua missão em circunstâncias muito difíceis. O reino de Judá era constantemente ameaçado por adversários e Jeremias devia dizer ao rei e ao povo que não fizessem alianças políticas com estrangeiros.

     Por conta do teor de sua pregação foi duramente perseguido pelos seus concidadãos que quiseram condená-lo a morte (Jr 11, 18 – 12, 6).

     Mudou-se então para Jerusalém, onde também foi perseguido e colocado na prisão pelo sacerdote Fassur (18, 1 – 20, 6).

     Livre da prisão profetizou a ruína da Cidade Santa e do Templo e, por isto, foi condenado a morte pelos sacerdotes e os falsos profetas, mas mais uma vez escapou (Jr 26, 1 – 19)

     Ditou os oráculos que tinha proferido desde o começo de sua missão a seu secretário Baruc (Jr 36, 2), que depois leu para o povo no Templo. O rei Joaquim mandou queimar esse escritos (Jr 36, 27).

     Jeremias então os dita novamente e ainda acrescenta outras profecias (Jr 36, 32). O rei Sedecias, posterior a Joaquim, mandou então, mais uma vez, prender Jeremias (Jr 37 – 39).

     Jerusalém tendo caído sob os golpes de Nabucodonosor (587 a.C.) Jeremias foi libertado da prisão, mas quis ficar na Terra Santa, junto com Godolias a quem Nabucodonosor colocara com prefeito a frente de Judá (Jr 40, 1 – 6).

     Godolias foi assassinado por judeus, que fugiram pra o Egito levando consigo o Profeta (Jr 42, 1 – 43, 13).

     No Egito, Jeremias exortou a sua gente à penitência (Jr 44, 1 – 30).

     Reza a tradição, à qual parece aludir Hebreus 11, 37, que Jeremias morreu apedrejado pelos judeus que não o queriam ouvir no Egito.

     Dotado de grande sensibilidade, sofreu profundamente durante toda sua vida de profeta. Chamado a “arrancar e destruir, exterminar e demolir” (Jr 1, 10) tinha que anunciar a desgraça de modo derrotista e antipatriótica (Jr 20, 8ss). Por conta disso era falado por todos no pais inteiro (Jr 15, 10) e isso lhe causava dor, que são expressas através de confissões (Jr 12, 1 – 6; 15, 10s.15 – 21; 20, 7 – 13.14 – 18). Ainda assim, sua reação era depositar a confiança em Deus (Jr 20, 13).

     Por ter sido o homem das dores, ele é tido como figura do Cristo Jesus. É o tipo do arauto da Palavra de Deus que sofre duras contradições por ser fiel à sua missão.

     O Livro contem os testemunhos dos 40 anos de sua pregação e é rico em conteúdo. Alguns traços importantes de usa mensagem:

     O livro é o espelho da piedade e dos íntimos sentimentos de Jeremias em relação a Deus e ao seu povo, principalmente as passagens ditas “Confissões” (Jr 11, 18 – 23; 12, 1 – 6; 15, 10 – 21; 17, 12 – 18;
18, 18 – 23; 20, 7 – 18).

     Fala da nova e definitiva Aliança que é descrita a partir sua experiência pessoal e mística: a Lei de Deus estará gravada nos corações, todos conhecerão a Deus no seu intimo e receberão o perdão dos pecados para levar a vida nova (Jr 24, 7; 31, 31 – 34; 32, 39; 33, 8). O Messias será o filho de Davi e instaurador de nova ordem (Jr 23, 1 – 8)

     Jeremias, maltratado durante os anos de sua missão, foi exaltado pelos pósteros, que lhe atribuíram grande autoridade. Foi tido como o amigo e o intercessor de seu povo junto a Deus no além (2Mc 15, 13 – 15; 2, 1 – 8). É citado em Dn 9,2 e
Eclo 49, 7(8s). Propondo uma Aliança nova fundada sobre a religião do coração, Jeremias tornou-se o pai do judaísmo em sua corrente mais pura; exerceu influência em Ezequiel
(Ez 36, 23 – 32), no 2º Isaías (Is 49, 1; 52, 13 – 53, 12) e em vários salmos (Sl 138/139; 39/40; 41/42; 42 e 43).

     A sua vida de abnegação a serviço de Deus o fez imagem do Servido de Javé (Is 53), que é o próprio Cristo.

Livro das Lamentações

Ÿ  Trata-se de uma coleção de 5 cânticos que choram a queda da Cidade Santa em 587 a.C.

Ÿ  Os 4 primeiros são acrósticos, isto é, as letras iniciais dos seus versículos formam o alfabeto hebraico segundo a série das suas 22 letras. Já o quinto não é acróstico, mas tem 22 versículos, a mesma quantidade das letras do alfabeto hebraico.

Ÿ  No primeiro o poeta e a cidade personificada lamentam a destruição de Jerusalém e reconhecem a culpa do povo (Lm 1).

Ÿ  No segundo o autor lastima a punição de Jerusalém e exorta a cidade à penitência (2, 1 – 19) e em 2, 20 – 22 Jerusalém pede misericórdia.

Ÿ  Já no terceiro cântico, o autor descreve a usa dor diante da desgraça de Jerusalém e sua esperança na misericórdia divina.

Ÿ  E no quarto, mais uma vez é pranteada a ruína de Jerusalém castigada segundo a Justiça.

Ÿ  O quinto cântico tem a forma de oração, que implora a ajuda de Deus para as vítimas da catástrofe de Jerusalém.

Ÿ  A tradição atribui ao profeta Jeremias a autoria das Lamentações, apoiando-se em 2Cr 32, 25, que apresenta o profeta como autor de Lamentações. Contudo, essa tradição começou a ser posta em xeque por Hermann Von der Hardt, 1712, hoje não é mais aceita.

Ÿ  Por conta disso, as Lamentações são atribuídas a um ou mais autores anônimos, isso porque há exegetas que julgam que os capítulos 1 e 5 são de autores diferentes.

Ÿ  Possivelmente foram redigidas na própria Terra Santa, sob o impacto recente da catástrofe de 587 a.C.

Ÿ  Sua finalidade, possivelmente, foi litúrgica. Compostas para comemorar todos os anos a queda do Tempo e de Jerusalém no dia que os judeus consagravam a tal evento. Hoje lemos nos últimos dias da Semana Santa para relembrar o drama do Calvário.

Ÿ  É de notar que esses cânticos fúnebres são perpassados por vivo sentimento de arrependimento e de inabalável confiança em Deus. E isso é que dá valor permanente a esse pequeno livro.

 

Profeta Baruc

 

  Baruc, que significa Bento, foi companheiro e amanuense ou escriba de Jeremias (Jr 32, 12;
36, 26). Acompanhou Jeremias no Egito depois da queda da Cidade Santa (Jr 43, 6s).

  O livro atribuído a Baruc consta de cinco capítulos e de um apêndice dito “Carta de Jeremias”, que a Vulgata latina considera como o capítulo 6 do livro.

  Trata-se de uma coletânea de 3 partes, que supõem o povo de Judá exilado na Babilônia.

  Após a introdução (Br 1, 1 – 4), que estabelece a comunhão entre os exilados e os habitantes de Jerusalém, segue cada uma onde:

  A primeira parte é uma oração de confissão dos pecados e de esperança dos exilados, que imploram a misericórdia divina
(Br 1, 15 – 3, 8).

  A segunda é um poema sapiencial, que identifica a sabedoria com a Lei de Deus e exorta Israel a voltar para a fonte da sua felicidade que é a observância da Torá (Br 3, 9 – 4, 4)

  Por fim, a terceira é outro poema, no qual Jerusalém personificada se dirige a seus filhos no exílio, exortando-os à coragem e à perseverança na fé; depois do quê o Profeta consola Jerusalém atribulada, recordando-lhe promessas messiânicas (4, 5 – 5, 9).

  O capítulo 6, ou epístola de Jeremias, encontra-se nos manuscritos gregos do Antigo Testamento logo depois de Lm, como um livro a parte. Já os textos latinos e sírios anexam a carta a Baruc.

  Ela parece ser uma exortação aos exilados para que não caiam na idolatria do ambiente babilônico em que se acham. Chama a atenção para a inércia dos ídolos, que não têm vida e são incapazes de ajudar. Observe os refrões:

  “Então não lhe tenhais temor” (vv. 15.22.28.64.68);

  “Como crer ou dizer que são deuses?” (vv. 39.44.49.56)

  “Quem não vê que não são deuses?” (vv. 51.63.68)

  O autor valeu-se de textos de Profetas anteriores como Isaías, Miquéias e outros. Mais diretamente ainda o autor se inspirou em Is 40 – 55 e Jr 10, 3 – 16. Além dessas fontes, o escritor tomou como base sua experiência própria (Br 6, 3 – 5. 8.10.12 – 14.19.29 – 42).

  Jeremias não é o autor dessa carta, como alguns estudiosos reconhecem. O título da carta (primeiro versículo) é acrescentado posteriormente e não faz parte do texto original. O texto deve-se a um anônimo, que pode ter escrito no fim do séc. IV a.C., quando a idolatria da Babilônia tomava novo surto.

  A finalidade é prevenir os judeus da diáspora, isto é, os judeus que estavam espalhados pelo mundo pagão e encorajá-los à fidelidade religiosa.